Em Santa Maria, prefeito eleito sofrerá com desconfiança e fantasma da Kiss


Marcelo Bertani / Agência de Notícias ALRS


Na cidade onde houve a menor diferença de votos do país no segundo turno, o prefeito eleito terá de cara dois problemas ao assumir: a desconfiança de metade da população e o fantasma da boate Kiss, tragédia que matou 242 pessoas em um incêndio em uma casa noturna. É nesse cenário que Jorge Pozzobom (PSDB) assumirá a Prefeitura de Santa Maria (293 km de Porto Alegre), na região central do Rio Grande do Sul, em 1º de janeiro de 2017.

O resultado do pleito teve a menor diferença registrada em todo país: 50,08% para o tucano, contra 49,92% para Valdeci Oliveira (PT) - separados por 226 votos. Pozzobom, no entanto, diz não se importar com o tamanho de sua rejeição. "O mais importante é governar para todos. Quero dar um abraço especial a quem votou no candidato Valdeci Oliveira. Vamos respeitar e vamos governar para todos eles. Em Santa Maria, ninguém vai dividir."

O novo prefeito terá o PT como o maior rival na oposição. Ainda assim, tentará convencer os quase 50% que votaram em seu oponente que ele merece uma chance - tarefa difícil, a julgar pelas polêmicas que criou com os petistas.

O tucano já deu algumas declarações polêmicas envolvendo os adversários. A que mais repercutiu ocorreu no início de 2015, quando discutiu com simpatizantes petistas pelo Twitter. Ele disse esperar que "alguém que não seja ameaçado de morte ou morto como o Celso Daniel possa trazer por delação a mega lista do PT". Repreendido, retrucou: "Me processa. Eu entro no Poder judiciário e por não ser petista não corro o risco de ser preso".

Na campanha deste ano, para a prefeitura, Pozzobom estava em uma reunião do Conselho Municipal de Saúde quando sugeriu que sua empregada doméstica utilizasse a cola "Super Bonder" para não ter mais filhos. O diálogo foi gravado e repercutiu nas redes sociais. "A questão do número de crianças que nasce, a minha empregada, que trabalha comigo, está grávida do quarto bebê. Eu brinquei com ela: eu vou te dar o presente. 'Ai, o que, seu Jorge?'. Eu vou te dar um Super Bonder'." 

"Cada declaração tem um momento. Eu estava falando de planejamento familiar e fui contar uma conversa muito pessoal. Foi uma brincadeira que se faz dentro de casa, mas contei e fizeram um carnaval."

Segundo Pozzobom, a fala foi utilizada politicamente. "O PT se acha muito esperto de pegar uma frase de forma seletiva e usar isso. Mas o recado quem deu foram as urnas. E não só a população de Santa Maria, mas do Rio Grande do Sul do país."

Entretanto, arrependeu-se e, logo após o ocorrido, emitiu nota se desculpando. "Sei que essa brincadeira foi totalmente desnecessária e peço desculpas por isso. E eu também lamento que algumas pessoas tirem essa declaração do contexto", afirmou.

O fantasma de uma tragédia

Uma das principais cobranças que o novo prefeito será em relação ao prédio da Boate Kiss, palco da tragédia que matou 242 pessoas, em 2013. O tema tem sido deixado de lado por grande parte da população - e consequentemente por seus representantes. Durante a campanha, candidatos a vereador insistiram na tese de que "a cidade precisa seguir". Porém, as famílias dos mortos e dos sobreviventes não veem reconhecida a sua dor nem pela Justiça, nem pelas autoridades municipais. 

Pozzobom diz que é prioridade atender um dos principais pedidos dos familiares. "Vamos desapropriar o prédio e fazer um memorial. Primeiro precisamos fazer o projeto e ver o custo. Mas a desapropriação vai sair imediatamente. Queremos virar a página da Kiss e ver Santa Maria voltar a sorrir."

Em fevereiro de 2013, Pozzobom foi afastado da comissão instalada na Assembleia Legislativa do RS que acompanhou as investigações sobre a tragédia. Ele foi destituído depois que veio a público que já havia sido advogado, anos antes, de um dos sócios da boate, Mauro Hoffman. Pozzobom teria representado o empresário em um processo envolvendo outra casa noturna na cidade.

Segunda disputa

Em 2016 foi a segunda vez que Pozzobom disputou a prefeitura. Com 46 anos, é formado em direito pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), sua cidade natal. Casado e pai de duas filhas, Pozzobom iniciou na política em 2000, como suplente de vereador na cidade.

Na eleição seguinte, elegeu-se para a Câmara de Vereadores de Santa Maria, mas deixou o cargo, dois anos depois, para concorrer à Câmara Federal, ficando na suplência. Em 2007, foi nomeado secretário-geral adjunto de Saúde no governo gaúcho de Yeda Crusius (2007-2011). 

Já em 2009, retornou a Santa Maria, onde exerceu o cargo de secretário municipal de Assistência Social. Um ano depois, assumiu a pasta de Integração Regional e Relações Institucionais da cidade. No mesmo ano foi eleito deputado estadual.

Na eleição de 2012, foi candidato a prefeito de Santa Maria, mas acabou derrotado por Cezar Schirmer (PMDB), que deixou, em setembro deste ano a prefeitura para se tornar Secretário de Segurança do RS. Em 2014, Pozzobom foi reeleito deputado estadual do RS, onde se gabaritou para a vitória atual.



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